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Medicina

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Bloco Operatório
09/05/2011

Amigdalectomia

Cirurgia-Amigdalectomia
Entrevistado: dr. Joaquim Amaral
Texto: Alerta! Saúde
Imagem: DR; Alerta! Saúde

Saiba e veja como decorre esta cirurgia

A amigdalectomia é a cirurgia que consiste na remoção das amígdalas, as crianças são as que mais são submetidas a este procedimento. O Dr. Joaquim Amaral, otorrinolaringologista do Hospital do Divino Espírito Santo, explica que a amigdalectomia praticada atualmente não é a mesma que se fazia há anos atrás, tendo a sua técnica evoluído muito desde então. Esta evolução fez com que o número de complicações diminuísse e é também menor a dor no pós-operatório – que é agora mais fácil de se controlar. Como disse o médico, “era quase uma técnica à parte do que se faz agora”.

 

A nível mundial, 7 a 10% das crianças têm uma indicação formal para retirar as amígdalas.

Esta situação não é impossível de surgir num adulto, contudo haverá sempre um historial médico que aponte para problemas deste género no seu passado, indícios da necessidade de uma cirurgia ou tratamento que não foram realizados, e o médico adverte: “quanto mais cedo se faz uma amigdalectomia melhor é o pós-operatório, menor risco de complicações e menor dor”.

As indicações para que se recorra a esta cirurgia são também, hoje em dia, mais concretas. Amigdalites recorrentes, necessitando de antibióticos, apneia do sono (patologia cada vez mais frequente e à qual por vezes não se atribui a devida importância) que acarreta um menor desenvolvimento na criança, visto que ela não descansa como deveria durante a noite – constituem 90% das indicações para amigdalectomia. Estas situações implicam ainda que a criança se torne mais agitada, apresentando dificuldades escolares, um défice de atenção e possíveis alterações da tensão arterial. Amígdalas grandes provocam também alterações na linguagem e deglutição.

Porém, o Dr. Joaquim Amaral lembra que “não se parte logo para a cirurgia. Pode-se tentar muitos tratamentos antes, a cirurgia deve ser sempre a última linha de tratamento. Se os tratamentos não resultarem, é melhor tirar as amígdalas do que estar a sofrer de todas as complicações decorrentes de elas lá estarem”.

O otorrinolaringologista defende que há mitos sobre esta cirurgia que não devem persistir. Especula-se que uma criança que sofra de asma não pode tirar as amígdalas, que haverá sangramento abundante, que o sistema imunitário enfraquece, que as amígdalas poderão voltar a crescer e que é necessário que se desloque a mandíbula para que se consiga operar. Nenhum deles é verdadeiro. Quanto à asma, como disse o médico, “nos primeiros meses pode haver algum agravamento nestas crianças, mas consegue-se controlar com medicação”, esclarecendo que a amigdalectomia não causa, nem interfere diretamente com a asma.

A hemorragia também não atinge de forma alguma as proporções imaginadas, e no que diz respeito ao sistema imunitário, “embora as amígdalas sejam uma primeira linha desse sistema, a partir de uma certa idade é perfeitamente compensado pelo organismo, havendo outras linhas de defesa. Não ocorrem mais infeções, nem infeções mais graves só por as tirarmos”, clarificou o Dr. Joaquim Amaral. Além disso, as amígdalas não voltam a crescer e a cirurgia é feita através da boca, sem interferência alguma com a articulação do maxilar.

Por outro lado, o que se constata de facto são os benefícios resultantes da amigdalectomia: as crianças aumentam de peso, crescem e desenvolvem-se melhor, por terem menos infeções.

Amigdalite[1]

Quando há indicação para amigdalectomia e se esta não for realizada, há problemas que daí podem advir, como as recorrentes amigdalites infecciosas, problemas nos rins, coração, articulações e mais probabilidade de abcessos locais, podendo a gravidade destes variar. Para além destes, não se pode nunca esquecer o “mau desenvolvimento e o desgaste físico que é muito maior, porque a criança está sempre a combater uma doença. Aí os benefícios de tirar as amígdalas são muito maiores”, explanou o otorrinolaringologista.

O Dr. Joaquim Amaral salienta ainda as repercussões da apneia do sono, sendo esta uma das indicações para a amigdalectomia: “a criança desenvolve-se mal, não dorme o suficiente, tem mais baixo rendimento escolar e intelectual, há um aumento da hipertrofia cardíaca: porque coração cresce para poder compensar bombear o sangue a toda a hora, visto que tem um défice de oxigénio. Pode até haver alterações de humor, de personalidade, porque naqueles estadios ela não esteve a respirar e a descansar como devia durante a noite”.

Adenoides grandes, que normalmente aparecem associados ao quadro da amigdalectomia, podem causar “alterações a nível do palato, da arcada dentária, na forma como os dentes se encaixam e ainda alterações ósseas que podem necessitar de tratamentos por vezes dispendiosos, mais prolongados e dolorosos que aqueles de tirar amígdalas e adenoides aos 3 ou 4 anos”, recordou o médico.

Das amigdalites combinadas com adenoides grandes podem suceder problemas ao nível dos ouvidos. Como referiu o Dr. Joaquim Amaral, “10% das crianças em idade escolar têm otites serosas e problemas ao nível do ouvido decorrentes da obstrução nasal”.

Quadros de rino-faringite propiciados por climas húmidos, como o açoriano, e com poluição, não são um fator causal para o aparecimento de amigdalites. “Há tratamento para isso antes, se o caso for alérgico é resolvido com tratamento e não se chega à cirurgia”, sublinhou o otorrinolaringologista.

 

Com a autorização da administração do Hospital do Divino Espírito Santo, o jornal Alerta! Saúde assistiu a esta cirurgia, sob a orientação e acompanhamento do Dr. Joaquim Amaral, que realizou a cirurgia e nos explicou prontamente todo o seu procedimento, permitindo-nos observar de perto uma amigdalectomia.

O pré-operatório

O Dr. Joaquim Amaral assegura que o pré-operatório é muito simples, lembrando que os hospitais estão preparados para receber crianças. Não há internamento antes e é apenas necessário passar uma noite no hospital: a da cirurgia.

A criança já terá de ter feito análises prévias e no dia terá de estar em jejum cerca de 6 horas antes, sem comer ou beber. Sem este jejum, aumentariam significativamente os riscos de complicação cirúrgica. Devido à anestesia geral, o tónus muscular encontra-se muito relaxado, crescendo assim o risco de refluxo de comida para a boca e daí para os pulmões, podendo provocar pneumonias e infeções.

A preparação emocional é também fundamental, o médico refere que a criança “deve vir calma e segura, tendo-lhe sido explicado tudo o que vai fazer, os pais devem ser estimulados a fazer isso e não esconder o que vai acontecer. É preciso dizer-lhes que vão levar uma pica, (porque é preciso sempre canalizar uma veia, é mais seguro se o fizermos antes da cirurgia), mas como já fez análises já sabe que não é uma coisa muito má. Devem ser preparadas o melhor possível para a cirurgia”.

De seguida, são encaminhadas para o bloco operatório, onde “as equipas estão preparadas para lidar com crianças normalmente assustadas, que estão num ambiente que não é o seu”, garantiu o médico.

 

A cirurgia

Ao chegar ao bloco operatório, inicia-se o processo de anestesia geral. O Dr. Joaquim Amaral menciona que “normalmente quando são tiradas as amígdalas na criança, também são tirados os adenoides, porque é uma cirurgia simples e se esses não forem tirados podem eventualmente manter-se quadros de faringite, o que pode fazer com que a cirurgia não tenha um sucesso tão grande”.

Atualmente, a maior parte dos cirurgiões pratica a amigdalectomia através de disseção elétrica. Ou seja, é passada uma corrente elétrica num plano muito certo, entre a amígdala e o resto da garganta, não havendo quase sangramento nenhum, até porque todos os vasos sanguíneos encontrados são cauterizados de imediato, tornando também o risco de hemorragia menor no pós-operatório.

A cirurgia é feita pela boca que é mantida aberta por um instrumento específico para o efeito, mas sem provocar alterações nenhumas ao nível da articulação do maxilar.

O otorrinolaringologista ressalva a preocupação que há em não se ferir os lábios e gengivas. Se a criança tiver algum dente já a mexer, esse deve ser retirado para evitar o perigo de se perder ou de se fraturar o dente.

Os adenoides também são igualmente removidos através da boca, por visão indireta, isto é,  através de palpação e experiência do cirurgião. Estes não podem ser removidos inteiramente, pois não há um plano entre os adenoides e a coluna (à qual eles se encontram adjacentes), como acontece com as amígdalas, que são inteiramente removidas e não voltam a crescer. Quanto aos adenoides, “para tirá-los todos teria de se raspar a coluna e isso não é possível, por isso deixamos sempre alguns, que normalmente não voltam a crescer, mas é possível, ao contrário das amígdalas”, explicou o médico.

A duração da amigdalectomia varia entre 15 e 30 minutos. De qualquer modo, o Dr. Joaquim Amaral destaca que o mais importante não é o tempo em que cirurgia decorre, é que “a façamos toda como deve ser, com o máximo de segurança e eficácia”.

 

Pós-operatório

Do bloco operatório, a criança é conduzida, já acordada, para o recobro, onde vai encontrar uma sala especialmente desenhada para a sua idade. Nesse momento, é chamado um dos pais para a acompanhar, visto que ainda estará sob algum efeito da anestesia. Este acompanhamento é importante tanto em termos emocionais como de vigilância, embora estejam sempre presentes médicos e enfermeiros.

No pós-operatório, a criança é mantida a soro para evitar a desidratação. É normal que surja um pouco de febre e que ainda se verifique algum ressonar (pois os tecidos onde estavam as amígdalas e/ou adenoides encontram-se edemaciados). A boca pode apresentar-se branca, o que é também usual, não se trata de pus, mas sim da cicatrização normal da garganta. Pode haver algum vómito, quer devido aos efeitos da anestesia, quer devido a algum sangue que possa ter sido engolido, e pode dar-se hemorragia, principalmente vinda dos adenoides, já que nesses é mais difícil a cauterização de todos os vasos.

Todos estes sintomas são naturais e irão desaparecer.

Ao fim de algumas horas, a criança pode iniciar a alimentação, que deve ser líquida/mole e fria. Os alimentos líquidos evitam que se fira a zona das amígdalas e os frios previnem a hemorragia, visto que o calor causa a dilatação dos vasos.

Como a amigdalectomia abrange sobretudo crianças, o gelado torna-se no alimento preferencial, por reunir as características necessárias e por ser do agrado das crianças. É também possível optar por papas, gelatinas, iogurtes e sumo. Mais tarde, ela poderá começar a ingerir alimentos um pouco mais sólidos, sendo esta uma situação que deve ser discutida com o médico, caso a caso.

Pode dar-se a passagem de alguns alimentos para o nariz, devido à alteração da musculatura da garganta, a criança terá de aprender a engolir. É possível também que tenha de reaprender a falar e a colocar a voz, visto que há mais passagem de ar e a tendência é a de falar pelo nariz.

Na opinião do Dr. Joaquim Amaral, há apenas um entrave para que se atinja esse sucesso totalmente, “praticamente todas as semanas operamos crianças, são à volta de 100 por ano. Há uma lista de espera grande na ilha, infelizmente. Às vezes as crianças precisam mesmo de ser operadas e quanto mais se espera maior é o risco de complicações e menor é o seu desenvolvimento, 1 ou 2 anos é tempo precioso que se está a gastar”.

Mitos

Crianças que sofrem de asma não podem tirar as amígdalas – FALSO

A amigdalectomia provoca sangramento abundante – FALSO

O sistema imunitário fica enfraquecido após esta cirurgia – FALSO

É necessário deslocar a mandíbula para se operar – FALSO

As amígdalas podem voltar a crescer – FALSO

 

Glossário

Edemaciado: diz-se do órgão com edema. Edema é o nome que se dá ao inchaço localizado em alguma parte do corpo. Os edemas mais conhecidos são os que ocorrem nas pernas. Mas edemas podem ocorrer em qualquer ponto. Existe edema de pulmão, edema cerebral, edema de glote, edema de língua, entre outros.

 

Tonus muscular é o estado de tensão elástica (contração ligeira) que apresenta o músculo em repouso, e que lhe permite iniciar a contração imediatamente depois de receber o impulso dos centros nervosos. Num estado de relaxamento completo (sem tonus), o músculo levaria mais tempo a iniciar a contração.

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