Entrevista - Assédio sexual - Alerta! Saúde

Medicina

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Intervenção Social
05/11/2014

Entrevista – Assédio sexual

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Entrevistada: Psicóloga clínica Lissa Figueiredo
Imagem: DR

Assédio Sexual

Proteja-se e denuncie, ponha fim a este crime!

 

O que é o assédio sexual?

O assédio sexual pode ser visto como uma forma de pressão, na qual o agressor procura através da chantagem e da posição hierárquica que ocupa (o assediar encontra-se hierarquicamente acima do assediado), obter favores sexuais ou de submissão face ao assediado. Pode ainda definir-se como atos, insinuações, contcatos físicos forçados e convites impertinentes de cariz sexual, que normalmente ocorre em contexto laboral ou académico.

 

Quem e como são as vítimas?

Não existe um perfil traçado das vítimas de assédio sexual, mas podemos afirmar que são sobretudo mulheres. Todas as mulheres, independentemente da sua idade ou condição social, estão sujeitas a situações de assédio sexual. Contudo são as mulheres solteiras, viúvas, divorciadas ou separadas as mais afectadas, por terem talvez, geralmente, uma situação económica mais frágil e condições mais vulneráveis.

 

Qual o perfil do assediador?

Embora o assédio sexual seja predominantemente cometido por homens, também existe a possibilidade dos agressores serem mulheres. E também poderão ser dirigidos a ambos os sexos. Normalmente é exercido por pessoas que se encontram em posições hierárquicas superiores às das vítimas, mas é independente da classe social, e escolaridade.

Assédio sexual

Por quê assediar sexualmente? O interesse é sobretudo sexual ou de imposição de poder através do sexo?

Tratando-se de um crime com caráter sexual, o assediador não procura seduzir ou conquistar, mas sim exercer um poder abusivo, escolhendo as vítimas conforme a probabilidade de conseguir ou não impor esse poder.

 

Quais os motivos que levam a estes comportamentos?

Há vários motivos que poderão levar uma pessoa a assediar outra como problemas mentais, traumas, poder, falta da noção de limites, entre outros.

Há quem defenda que o agressor procure e escolha a sua vítima, e que esta, grande parte das vezes não percebe logo que está a ser alvo de assédio.

 

Tratar-se-á de uma doença?

Na minha opinião, o assédio sexual não é uma doença, mas sim uma forma de agressão e de discriminação que atenta à dignidade da mulher, prejudicando a relação de trabalho.

O assédio sexual é uma forma de violência que atinge particularmente as mulheres e que no fundo resulta de um problema antigo face á posição de inferioridade em que as mulheres têm vivido, especialmente no mundo do trabalho.

 

Na sua opinião, os agressores devem ser reabilitados?

Uma vez que não se trata de uma doença, na minha opinião, diria que em vez de reabilitados os agressores deveriam ser punidos.

Atendendo às consequências graves que poderão decorrer desta situação é importante que as pessoas estejam informadas sobre os seus direitos, reprimam qualquer tentativa de assédio, denunciem a prática deste ato e sobretudo que haja informação sobre este problema.

 

Quais as emoções que se apoderam das vítimas de assédio sexual? Como reagem?

Na maioria dos casos a vítima sente-se culpada e envergonhada, porque é muito fácil os outros culpabilizarem-na pela situação.

Existe o mito (sobretudo no caso das mulheres) que se estas são assediadas é porque de alguma forma o facilitaram. Muitas destas mulheres procuram resolver a situação sozinhas por vergonha, acabando por ser prejudicadas, quer a nível do emprego, quer a nível dos relacionamentos. Algumas vezes mantém-se em silêncio com medo de represálias.

Assédio sexual

Que atitude deve a vítima tomar para com o assediador?

Um passo importante poderá ser a denúncia junto de um superior hierárquico do agressor e acima de tudo a vítima deverá sempre que possível afastar-se do agressor ou evitar estar sozinha na presença do mesmo.

Deverá ainda contar aos seus colegas a situação ou situações de assédio, e dizer sempre não ao agressor com firmeza e convicção.

É importante que a vítima denuncie criminalmente o agressor, podendo ser igualmente importante a obtenção de apoio judicial e até mesmo a recolha de provas da situação.

 

Que repercussões emocionais e psicológicas podem advir destas situações para a vítima?

Existem repercussões gravíssimas para a vítima, sobretudo ao nível psicológico, como o aparecimento de sintomatologia depressiva, insegurança, baixa autoestima, culpa, problemas relacionais e afetivos, tristeza, fobias e até perturbações de ansiedade como é o caso da perturbação de Stress Pós-traumático. Em casos mais graves poderá surgir a tentativa de suicídio.

 

Quais as áreas da vida da pessoa assediada passíveis de serem afetadas por estas repercussões?

As duas áreas mais afetadas são as relacionadas com o emprego e situação laboral, e área do relacionamento afetivo e/ou familiar.

 

Poderá afetar a autoestima ou intimidade da pessoa?

É frequente mulheres vítimas de assédio ou violência (por exemplo, doméstica), desenvolverem crenças acerca de si próprias incorretas, que acabam por se refletir na sua vida quotidiana. Algumas acham que são culpadas do assédio, sentem vergonha, sentem-se diminuídas enquanto pessoas, afetando a sua autoestima, o que acaba por prejudicar na sua intimidade porque adquirem dificuldades no relacionamento afetivo.

 

Como ultrapassar a situação?

Se é uma situação que perdura há muito tempo e se a vítima não sabe como lidar com a situação, notando que esta tem trazido consequências negativas para a sua vida, as quais não consegue controlar, recomenda-se que procure ajuda profissional.

A ajuda de um psicólogo poderá trazer benefícios individuais e ajudar a encontrar toda a ajuda que necessitará para resolver a situação nas várias vertentes (psicológica, reencaminhamento para apoio jurídico, entre outras).

 

Conseguir que o assediador seja punido pelo que fez pode ajudar a vítima a superar?

A punição judicial pode ser benéfica para as vítimas porque possibilita o aumento do sentimento de segurança, contudo a maior parte delas apenas deseja não ter que enfrentar ou ver sequer o agressor novamente e que sejam deixadas em paz.

 

Caso o agressor não seja punido, de que modo pode isso afetar a pessoa que foi assediada?

Afeta porque aumenta o sentimento de insegurança, pode levar a um aumento de crenças de fracasso, aumenta a baixa autoestima e poderá levar a outros problemas no contexto de trabalho.

Assédio sexual

Não se deixe subjugar, defenda a sua intimidade, dignidade e sexualidade. O sexo, e conotação inerente às mulheres de serem vulneráveis e frágeis, não devem ser motivos para que se sobreponham a elas, manipulando-as através de atos que diretamente influenciam, denigrem e destroem as suas emoções e autoestima, ameaçando simultaneamente a sua vida profissional.

Proteja-se e denuncie, ponha fim a este crime!

 

01/2012

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