Obesidade - Alerta! Saúde

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Reportagens
15/01/2015

Obesidade

A obesidade é uma doença multifatorial complexa, originada por vários componentes de ordem genética e ambiental. Atinge todas as pessoas, de todas as faixas etárias e estratos sociais.

Nos Açores, a taxa de excesso de peso nas crianças é a mais elevada do país.

 

O Dr. Rui Fontes começa por esclarecer que embora uma pessoa tenha tendência genética para aumento de peso, se mantiver um regime alimentar e exercício físico proporcional às necessidades do seu organismo, não engordará. O contrário também é possível, ou seja, se a pessoa não tiver a herança genética que favorece o aumento de peso, mas se tiver, contudo, hábitos de vida que beneficiem a Obesidade, essa pessoa engordará muito provavelmente.

Como disse o Dr. Rui Fontes, a Obesidade “é uma doença, mas acima de tudo é um fator de risco para a Doença Cardiovascular e para outras doenças como a Diabetes Mellitus tipo 2, a Dislipidémia (alteração do metabolismo dos lípidos), Patologia Osteoartrósica (Patologia deformativa dos ossos), Hipertensão Arterial, até para alguns tipos de Cancro e para Doença Cerebrovascular”.

A Obesidade consiste na acumulação de gordura, contudo esta apresenta uma face visível, facilmente detetável, e uma faceta oculta – a gordura visceral, que se encontra acumulada nos órgãos e artérias. “Esta última é problemática”, alertou o médico.

O médico acautela para a importância da Obesidade como fator de risco para Doença Cardiovascular ou para outras doenças igualmente perigosas. “Não imaginamos a quantidade de gordura que se esconde nos órgãos e nas artérias, nem imaginamos as implicações que isso tem”.

Este médico utiliza uma analogia com os seus pacientes, de modo a melhor entenderem o peso que têm a mais: “Submetemos o nosso organismo a uma sobrecarga que não é justa; por exemplo, 20kg a mais é como se o corpo fosse sobrecarregado com uma saca de batatas durante todo o dia, todos os dias do ano. É uma penalização que não devemos infligir a nós próprios, não merecemos isto”.

A avaliação da obesidade é feita através de três parâmetros fundamentais: o IMC (Índice de massa corporal), perímetro abdominal e a relação do perímetro abdominal com o perímetro da anca. Com estas avaliações é possível diagnosticar a obesidade e esses parâmetros são também fatores preditivos para Doença Cardiovascular. Como explica o Dr. Rui Fontes, “todos temos o nosso balanço energético, fortemente determinado pelo metabolismo; este se for mais rápido, a pessoa não engorda tanto. É o balanço entre as calorias ganhas através da alimentação e as gastas através de atividade física que define a quantidade de acumulação de gordura. Nós e o nosso médico temos de nos conhecer a nós mesmos, ao nosso metabolismo, e às nossas necessidades energéticas para se estabelecer um plano de gastos apropriado”.

O consumo calórico e seu gasto têm de ser sempre proporcionais.

O médico assegura que, independentemente de tendência genética ou não para aumento de peso, todas as pessoas conseguem emagrecer. No entanto, se se manifestar a presença “de uma doença que altere o metabolismo, de outras doenças concomitantes, ou medicação que altere a saciedade, pode tornar-se muito difícil emagrecer”, explicou o Dr. Rui Fontes. Por exemplo, o hipotiroidismo – mau funcionamento da glândula tiróide – atrasa o metabolismo. Assim todas as calorias são mais aproveitadas pelo organismo, causando a tendência para engordar. “Às vezes a obesidade deve-se a doenças que interferem com o metabolismo”, recordou o Dr. Rui Fontes.

 

Obesidade infantil

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No contexto da obesidade infantil, sabe-se que uma criança que tenha, pelo menos, um dos progenitores obeso tem mais probabilidades de ser também obesa. Este aspeto deve-se naturalmente à herança genética, mas também aos hábitos alimentares e de modo de vida que adquire através da sua família.

“O conhecimento adequado dos pais acerca de uma alimentação equilibrada influencia, no futuro, a taxa de obesidade dos filhos. Os pais não conseguem intervir nos gostos dos filhos, mas influenciam o tipo de alimentação que irão preferir e praticar. Por exemplo, há crianças que não tomam o pequeno-almoço e uma alimentação fracionada é fundamental para controlar os níveis de saciedade. Temos de nos manter saciados para não sentirmos fome ou não a sentirmos em excesso”, disse o médico.

É ideal que faça 5 a 6 refeições diárias, relativamente de 3 em 3 horas. Atente que o pequeno-almoço é elementar, pois é a primeira refeição depois de um longo período de jejum. Para as crianças, em que as horas de sono deverão ser em maior quantidade, aumentando assim o tempo sem ingestão de alimentos, o pequeno-almoço reveste-se de ainda maior importância, até porque as crianças iniciam o dia na escola, onde lhes são exigidas energia e concentração.

 

Contexto social e político

A Dinamarca é o primeiro país que adota taxas penalizadoras para fast-food. Ou seja, em alimentos cujas gorduras saturadas sejam superiores a 2,3%, é lhes acrescentado uma taxa que poderá atingir 15% sobre o seu custo.

Em Portugal, embora com alguma controvérsia, já se fala do assunto. “O Bastonário da Ordem dos Médicos, Professor Doutor José Manuel Silva, opina ser a favor destas taxas”, asseverou o Dr. Rui Fontes.

Segundo o médico, a Obesidade é “mais do que um problema individual, é uma questão de saúde pública e política. É uma epidemia”. No seu ponto de vista, é preciso insistir cada vez mais em campanhas e estratégias junto da população, principalmente das crianças. Estas medidas devem partir dos médicos, nutricionistas, comunicação social, e até mesmo, de entidades governamentais.

 

Classificação do peso e dietas

Para calcular o seu IMC, divida o seu peso pela sua altura ao quadrado, isto é: kg/m2.

Se o resultado for inferior a 18,5, tem baixo peso. IMC entre 18 a 24,9 significa peso normal. De 25 a 29,9 corresponde a excesso de peso. IMC superior a 30 equivale à Obesidade.

Nesta, podemos considerar 3 graus:

Grau I:  30 a 34,9

Grau II:  35 a 39,9

Grau III/Obesidade Mórbida:  +40

 

“Até há pouco tempo, considerava-se que o excesso de peso seria prejudicial, no entanto, um estudo relativamente recente aponta que um IMC entre 25 e 29,9 pode ter efeitos protetores cardiovasculares”, explicou o Dr. Rui Fontes.

No entanto, lembre-se que acima de 30 se trata já de Obesidade: uma doença que, embora deva ser tratada, deve primeiramente ser evitada.

Talvez os aspetos mais difíceis inerentes à perda de peso necessária para uma boa saúde sejam os fatores psicológicos e de hábitos de vida enraizados na vida da pessoa, os quais são problemáticos de contrariar.

“A alimentação pode tornar-se num comportamento aditivo, com uma componente psicológica; a pessoa come sem ter fome”, preveniu o médico. Mais do que de regime alimentar, de exercício físico e, possivelmente, de medicação, a pessoa obesa necessita de psicoterapia para encontrar a sua motivação e perseverança para conseguir atingir o peso ideal.

Como disse o Dr. Rui Fontes, “alterar hábitos é difícil; as pessoas comem mal desde crianças, várias vezes ao dia, durante uma vida inteira!”.

Segundo o mesmo, a alimentação é um comportamento básico do ser humano, contudo complicado pelo próprio Homem e pela sociedade, que conferem a essa necessidade hábitos que vão para além do que o organismo precisa, como confeções ou bebidas pouco adequadas. “O ideal é água. Por exemplo, os animais só bebem água”, frisou.

O Dr. Rui Fontes ressalva que primeiramente é fundamental desmistificar as dietas, transformando a ideia de sacrifício com que se associam numa nova forma de estar.

E lembre-se sempre: o combate à obesidade, mesmo depois da perda de peso, é um processo permanente. Pode ser ainda mais custoso evitar aumentar de peso novamente do que tê-lo perdido uma primeira vez.

Contudo, nunca se esqueça de que as dietas devem ser sempre acompanhadas por profissionais. “Quando a pessoa perde peso, entra num processo de satisfação pelo autocontrolo, pelo poder que tem sobre si própria, torna-se estimulante e pode querer ir  sempre mais além. Em alguns casos, podem surgir fenómenos psicológicos perversos com efeito contrário em que a pessoa entra em esquemas de obsessão com o controlo do peso”, alertou o médico.

Porém, verdade é que quem de fato já foi obeso, sentirá sempre receio de voltar a engordar, até pelo custo a que se submeteu. Ainda assim, segundo o médico, esse medo pode ser positivo para melhor monitorizar a alimentação.

 

Depressão e Obesidade

depressão e obesidadeComo asseriu o Dr. Rui Fontes, a relação entre Obesidade e Depressão está comprovada. “A depressão é um síndrome que contempla uma série de sinais e sintomas, um dos quais aumento/diminuição do apetite. Há frequentemente uma alteração do comportamento alimentar, dos níveis de saciedade, de neurotransmissores disponíveis no cérebro. Alguns antidepressivos provocam, devido a esses efeitos neuroquímicos, um aumento de peso. A própria doença depressiva pode acarretar uma alteração do padrão alimentar”.

Conquanto, se uma pessoa deprimida aumentar significativamente o seu peso, esse será mais um fator que agrava a sua condição.

“A Obesidade interpõe-se com a autoestima, com a consciencialização da imagem corporal e até com a perceção de perda de faculdades de autocontrolo. Todos gostamos de ter a situação controlada. E torna-se num ciclo vicioso: a pessoa torna-se mais deprimida e come ainda mais”.

Na opinião do médico, a pessoa deve manter o peso ideal, ou perto do ideal, para se sentir bem consigo própria, representando o bem-estar uma arma perante as dificuldades, contribuindo para evitar perturbações depressivas.

 

A idade e o peso

Quanto à relação entre o avançar da idade e o aumento de peso, o médico explica que embora aquando do processo de envelhecimento é possível que as pessoas se tornem mais sedentárias, por outro lado o nível de saciedade diminui com o avançar da idade.

“Os mais idosos ficam satisfeitos apenas com um chá e uma torrada. É insuficiente em termos nutricionais, mas para eles é satisfatório. Assim, com este comportamento desadequado deveriam perder peso, mas há o sedentarismo que aumenta com a idade e o metabolismo também se lentifica, portanto o que ingerem é armazenado pelo organismo mais facilmente”.

O médico lembra ainda que o organismo humano é complexo e está em permanente mutação, pelo que as pessoas devem, ao longo da sua vida, continuar sempre a adaptar o consumo calórico e a atividade física à sua situação do momento.

 

Açores: crianças do país com a mais alta taxa de excesso de peso

O estudo COSI – Childhood Obesity Surveillance Initiative – realizado em 2008 pela INSA, avaliou 181 escolas das 7 regiões do país, englobando quase 4000 crianças dos 6 aos 8 anos.

Este estudo aponta os Açores como a região onde a taxa de excesso de peso nas crianças é mais elevada: 46,6%. Enquanto que a taxa geral é de 37,9%. A obesidade é também superior nesta região.

O Dr. Rui Fontes acredita que esse número elevado prender-se-á com motivos alimentares, “a alimentação açoriana tem certas particularidades que devem contribuir fortemente para esta situação”.

Segundo o médico, o caráter rural dos Açores não influenciará estas taxas devido a uma possível falta de informação, pois “a região com a taxa mais baixa de obesidade é o Algarve, que não é tão urbanizado como Lisboa, por exemplo. Mesmo o Alentejo, que é predominantemente rural, não tem uma taxa significativamente mais elevada que as outras. Parece não haver relação direta entre ruralidade e obesidade, ou com a menor informação nessas zonas”.

O médico defende que todos nós, como sociedade e população, temos de nos responsabilizar perante estes dados. “Para mim, como Médico de Família, é legitimo que me questione: será que o meu trabalho é suficiente, será que também não sou responsável por essa taxa de obesidade?

Os cuidados de saúde primários são fundamentais nesta questão. Nós e os pais temos de nos responsabilizar, pois há, certamente, um trabalho que tem de ser melhorado. Trabalho esse de prevenção da obesidade por parte dos nutricionistas, dos psicólogos, médicos, equipas de saúde, junto das escolas. Esse trabalho já se tem vindo a fazer, mas presumo que tem de ser melhor. É preciso insistir com medidas concretas nos vários pólos dinamizadores das comunidades, como sejam as Casas do Povo, Juntas de Freguesia, Centros de Saúde: é imprescindível mais informação, mais marketing de promoção de uma alimentação saudável”.

Segundo o referido estudo, os refrigerantes light consistiam no alimento/bebida preferencial das crianças. Este tipo de alimentação deve ser evitada.

De salientar que a fast-food nunca deve ser encorajada, por exemplo, por campanhas publicitárias ou pelos responsáveis pela alimentação das crianças, sejam estes os próprios pais ou as escolas.

 

Tratamento

- Regime alimentar

- Atividade física

- Modificação comportamental

- Psicoterapia

- Prevenção de recaídas

 

O tratamento da Obesidade assenta, acima de tudo e em casos generalizados, numa alimentação adequada às necessidades do organismo, bem como ao gasto energético e em exercício físico adequado à pessoa. Depois destes, é fundamental investir na modificação comportamental, para que se consiga contrariar os hábitos alimentares. O trabalho de Psicoterapia é aconselhável para encontrar motivação, combater a rotina e prevenir recaídas.

No entanto, em casos de pacientes com IMC superior a 28, com dois ou mais fatores de risco associados, se após 3 meses de tratamento generalizado não houver uma perda superior a 5% do peso corporal, pode-se justificar a introdução de terapêutica farmacológica.

Como esclareceu o Dr. Rui Fontes, existiram durante largos anos em Portugal dois fármacos comercializados: Orlistat e Sibutramina. O primeiro funciona como um inibidor das lipases intestinais, isto é, inibe as moléculas que vão degradar as gorduras da alimentação, funcionando ao nível do tubo digestivo. Tomando este medicamento às três principais refeições, as gorduras não são degradadas como é habitual e portanto não vão ser absorvidas na sua totalidade”.

O Sibutramina é um inibidor da recaptação da serotonina e noradrenalina, ou seja, aumenta os níveis destas, estabilizando a saciedade, levando a pessoa a sentir menos apetite. Este fármaco foi, contudo, retirado do mercado pelo fato de as pessoas expostas à sua ação estarem mais sujeitas a eventos cardíacos.

A terapêutica farmacológica apenas deve ser utilizada se a primeira abordagem não resultar: é insubstituível que se persista na primeira linha do tratamento.

É conhecido o uso de laxantes e diuréticos para diminuir o peso corporal, mas estas não são opções saudáveis.

Os laxantes provocam alterações intestinais, acelerando o ritmo intestinal e dificultando a absorção de nutrientes. Os diuréticos causam uma depleção de água. “Nem uns, nem outros fazem sentido, muito menos os diuréticos, porque a perda de água causa uma perda de peso rápida, mas é falsa, pouco saudável e com efeitos complicados. Perde-se peso, mas com ele também água e sais minerais, o que pode ser francamente perigoso e sem se perder a gordura, portanto o problema mantém-se”, alvitrou o médico.

 

Terapêutica cirúrgica

Esta é aplicada em casos de Obesidade mórbida, ou seja com IMC superior ou igual a 40 (Grau III).

As opções consistem no Bypass intestinal e na Banda gástrica.

O Bypass intestinal cria um caminho alternativo, alterando a configuração normal do intestino para que os alimentos evitem a zona mais importante da absorção de nutrientes. O Bypass é feito através da técnica de ansa em Y de Roux.

A Banda vertical gástrica baseia-se na colocação de uma prótese no estômago que oprime parte dele, tornando-o mais pequeno, fazendo com que a pessoa sinta saciedade mais rapidamente. Esta é uma cirurgia restritiva.

 

“Para chegarmos ao ponto de termos de modificar o nosso organismo, só pode ser em situações extremas e com muitos fatores de risco. São desvios à configuração normal do nosso corpo. O melhor é prevenir a Obesidade, descobrindo-a precocemente”.

obesidade

Alimentação ideal

Segundo o médico, a dieta mediterrânica é seguramente a mais saudável. Esta inclui azeite, um consumo privilegiado de peixe e aves, o consumo de carne vermelha é reduzido, há a ingestão diária de legumes, hortaliças, fruta fresca, cereais e leite magro ou meio gordo. Por vezes, vinho tinto à refeição.

É com base neste resumo que se constrói uma dieta ideal.

Primeiro comece por realizar 5 a 6 refeições diárias, para manter os níveis de saciedade estabilizados e nunca se sinta tentado a comer demais ou o que não deve. Opte por poucas quantidades, para que o organismo consiga melhor acomodar os alimentos.

 

Pequeno-almoço – latícinios, hidratos de carbono e fruta

Leite magro ou meio gordo, iogurte

Pão, cereais

Fruta

 

A meio da manhã, escolha:

- Fruta

- Torrada

- Iogurte

 

Almoço

Opte por uma refeição completa, evite os snacks

Sopa

Carne, frango ou peixe (a sua ementa semanal deve preferir peixes e aves)

Acompanhe com arroz, massa ou batata

Sobremesa: FRUTA OBRIGATORIAMENTE

Bebida: ÁGUA

 

No lanche da tarde, pode escolher um dos mesmos alimentos estipulados para o lanche da manhã.

Ao jantar, a ementa assemelha-se à do almoço, porém poderá ser mais ligeira, visto não serem muitos os gastos energéticos nessa hora do dia.

 

 Seia – opte por:

Uma bolacha

Frutos secos

Iogurte

Fruta

Tenha cuidado com sumos naturais, contêm muito açúcar.

Confeção: grelhados, assados, cozidos em vez de fritos. 

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