Toxicodependência - Alerta! Saúde

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Reportagens
14/01/2015

Toxicodependência

sem nome
Entrevistada: dra. Ana Baião
Texto: Alerta! Saúde
Imagem: DR

Toxicodependência – Será possível parar?

Quando um toxicodependente não consome, sofre com dores musculares, contraturas musculares, náuseas, vómitos, ansiedade, sudação, insónia, cólicas abdominais, diarreias. E esses sintomas são apenas físicos – pois a dependência psicológica demorará cerca de 3 a ser tratada.

A sombra do vício não os larga durante toda a vida.

Vale a pena começar a consumir?

 

A Dra. Ana Baião, de Medicina geral e familiar, tem uma vasta experiência com casos de toxicodependentes. A médica ressalva: “Há muitos toxicodependentes na ilha, excluindo álcool e tabaco, estamos apenas a falar de drogas ilegais”.

A médica afirma haver muitas pessoas dependentes sobretudo da heroína, embora existam alguns casos de uso de cocaína, ou de uso concomitante de ambas as substâncias. Todavia, as drogas predominantes são a heroína e o cannabis.

“90% dos indivíduos no estabelecimento prisional deve-se a crimes relacionados com a droga, consumo ou tráfico, e há muitos consumidores!”, salientou a Dra. Ana Baião.

A faixa etária que mais consome drogas ilegais é a entre os 20 e 35 anos. A toxicodependência abarca todo o género de pessoas, de todas as classes sociais.

 

Por quê começar a consumir?

“A falta de informação é o que leva a começar”, assegurou a médica. Segundo a nossa entrevistada, o segredo consiste na prevenção. “É fundamental explicar às pessoas que estas drogas têm efeito sobre o sistema nervoso central, que lhe altera a vida. O segredo é não experimentar, porque se o fizer e tiver tendência para dependência, terá muita dificuldade em deixar”, alertou a Dra. Ana Baião.

Na opinião da médica, os adolescentes não estarão devidamente informados, e quando amigos exercem pressão social, com argumentos do género “Isso são teorias, não ficas agarrado”, eles acabam por ceder, vendo-se depois presos a uma rotina venenosa que os vai perseguir até ao fim dos seus dias.

A médica recorda que os adolescentes, por definição da idade, têm comportamentos de risco, questionam autoridade e os limites, mas não são completamente loucos. “Se lhes dermos a conhecer o que as drogas fazem à vida de uma pessoa, penso que não vão fazê-lo”.

Excluindo os adolescentes, há ainda casos de pessoas que iniciam o consumo mais velhas, “Há quem comece depois dos 20 anos de idade, quando já deviam estar suficientemente informados”.

 

Sintomas da dependência!

Quando o toxicodependente não consome, surge a sintomatologia: dores musculares, contraturas musculares, náuseas, vómitos, ansiedade, sudação, insónia, cólicas abdominais, diarreias. “São dores insuportáveis, pelo que as pessoas recorrem novamente à droga, consomem para se libertarem dos sintomas”, explicou a médica.

Estes sintomas despontam 24h pós a última toma e prolongam-se até 5, 7 dias. Essa é a apenas falta física, porque um dos grandes problemas da dependência é necessidade psicológica da droga.

“A componente física é fácil de tratar, cuja intervenção é de curta duração. Contudo, pessoas dependentes normalmente têm alguma condição por detrás, como distúrbios de personalidade, ou uma forma diferente de estar na vida”, asseriu a Dra. Ana Baião.

Habitualmente, os toxicodependentes revelam perturbações de comportamento, dificuldades de integração, complicações de sono, variações de humor, pouca tolerância à contradição – quando contrariados, gera agressividade, perdem o bom senso.

Estas são características originadas pelo consumo.

 

Dependências podem desenvolver-se em esquizofrenia ou transtorno bipolar

Como disse a médica: “Eu explico aos doentes que a heroína faz, ou determinadas drogas fazem, mas é sobretudo heroína e cocaína – é como um curto-circuito nas células cerebrais. Estas células quando morrem, não têm retorno, estão perdidas. Não é como a pele, que se regenera. O envelhecimento é a perda da vida da célula cerebral.

Para os que consomem drogas, com esses curto-circuitos, se tiverem gene da esquizofrenia, podem desenvolver uma crise psicótica e não há volta a dar”.

A partir desse momento, tendo esse diagnóstico, os toxicodependentes poderão ter necessidade de fazer medicação ou poderão sofrer de um tipo de esquizofrenia compatível com uma vida sem terapêutica, contudo será uma vida diferente.

“Ficam com essa anomalia. Talvez tenham de fazer terapia, se não se integrarem na sociedade, ou se forem destrutivos, por exemplo. Há vários tipos e manifestações de esquizofrenia”, esclareceu a médica.

Há uma ligação direta e científica entre consumo de drogas e surgimento de doenças psiquiátricas. O consumo regular, incluindo mesmo de canabinoides, como haxixe e charros as pessoas alegam não fazer mal, despoletam crises mentais que nunca aconteceriam se não fosse a droga e essas crises levam ao diagnóstico de perturbações mentais.

 

É difícil recuperar totalmente

Quem tem emprego, apoio familiar, alguém ao seu lado a dar apoio e compreensão, tem boas hipóteses de estar muito anos sem consumir. Contudo, a Dra. Ana Baião alerta: “Uma vez toxicodependente, toxicodependente toda a vida”. Para sempre a pessoa tem de controlar impulsos para não voltar a consumir.

Apenas experimentar é um risco que os persegue a vida toda.

 

Consulta de tratamento

“Forneço tratamento de substituição. Dependência de heroína é dependência de opiáceo e existem 3 tipos de tratamento para dependência de opiáceos: substituição de droga ilegal por uma legal (que é caso de bruprenorfina); a metadona, feita através da clínica S. João de Deus ou da Associação Arrisca); e tratamento com antagonistas”, informou a médica.

“Apenas nessa área, tenho 142 doentes”, frisou a Dra. Ana Baião.

“Não temos nos serviços públicos, à exceção da clínica S. João de Deus, tratamento de substituição de opioides. Não temos CATs no Açores, nem o fornecimento desse tipo de tratamento nos cuidados de saúde primários. Só podem recorrer a tratamento gratuito, que é a metadona, ou tratamento comparticipado, que é o que fazemos, prescrevendo os medicamentos que tomam para não consumir heroína”, asseverou a médica.

 

 

Tempo de tratamento

Para consumos de pouca duração, a médica opta pelo tratamento com antagonistas, evitando assim a droga de substituição.

No entanto, para consumidores de mais tempo é difícil não administrar a droga substituta, devido aos efeitos secundários da privação.

“Apontamos para 2 a 3 anos de tratamento. Mas não chega dar-lhes comprimidos: precisam de apoio psicológico e psicoterapia. Tratar a toxicodependência não é dar comprimidos, apenas os damos para aliviar um mal maior, para estabilizarem. Tratar a toxicodependência é mudar hábitos e mentalidades”, defendeu a médica.

Aos 3 anos de tratamento, tenta-se realizar o desmame, se a pessoa estiver estável e integrada. “Às vezes deixam a medicação completamente, às vezes mantém a mínima”, comentou a Dra. Ana Baião.

A médica aconselha os pacientes a manterem-se calmos, pois o stress desperta a vontade de consumir. “Se acreditam que a droga lhes resolve os problemas, então será muito difícil parar – trata-se de dependência da psicológica”, alvitrou a médica.

 

Dependência psicológica!

Esta comprova-se quando se verifica que a pessoa “não sabe viver sem o comprimido mágico. Até podemos afirmar que a pessoa tem todas as características que lhe permita ficar sem medicação nenhuma, ou apenas com sedação ou um antidepressivo, algo que melhore o seu humor, mas sem droga de substituição, mas se o paciente disser: «Quando penso nisso, fico todo arrepiado», então não podemos tirar”.

Sem a droga de substituição sentem-se inseguros, abandonados.

 

Efeitos da droga

Os opioides são sobretudo sedativos; a cocaína é ativadora, física e cerebral.

Estas drogas têm efeitos cardiovasculares, renais, cerebrais, neurológicos. Não influenciam apenas o sistema nervoso central. Por exemplo, uma overdose de cocaína pode matar por paragem cardíaca. “É tão ativador que o miocárdio não acompanha o estímulo que lhe é pedido”, atentou a Dra. Ana Baião.

As drogas matam devido a overdose ou associação a doenças infeciosas: a Hepatite C e o HIV.

“Neste momento, preocupa-nos mais a Hepatite C que o HIV – é muito mais contagiosa e nem sempreos pacientes respondem ao tratamento disponível. Quem é seropositivo ou tem SIDA, tem mais probabilidades de se tratar e viver muitos anos bem do que um individuo com Hepatite C: pois só 30% é que responde ao tratamento”.

Prevenção

“É preciso ir às escolas, falar com os meninos desde a primeira classe. Mostrar-lhes situações e testemunhos. Mostrar tudo sobre a droga: os efeitos nefastos das drogas na saúde. E quanto mais cedo começarmos, melhor”, garantiu a médica.

A sensibilização tem de ser trabalhada com antecedência, de modo que quando o perigo surgir, já a informação está enraizada e a pessoa será capaz de dizer NÃO.

Os ex-toxicodependentes poderiam trabalhar na prevenção, mostrando-se como exemplos do que a droga faz e falando da sua experiência. Contudo não o fazem porque a sociedade rotula, “Os toxicodependentes não são encarados como um doente, mas sim como um criminoso. Há sempre uma conotação negativa quando se fala da droga. O consumo de estupefacientes pode levar ao lado negativo da vida, mas temos de olhar para eles como um doente que tem de recuperar, a postura é essa” assegurou a Dra. Ana Baião, apelando: “Enquanto formos preconceituosos, não resolvemos o problema”.

 

Atenção!

Se pensa que a maioria dos toxicodependentes é homem, então está errado.

O número de mulheres toxicodependentes tem crescido cada vez mais. Se uma mulher

consumir heroína enquanto está grávida, quando filho nasce passa por uma privação que pode ser fatal.

A médica recorda que esse aspeto não pode ser esquecido e tem de ser trabalhado.

 

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