Um alvo de ódio: as mulheres. - Misoginia - Alerta! Saúde

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Intervenção Social
13/06/2014

Um alvo de ódio: as mulheres.

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Crónicas pela igualdade e solidariedade

 

Permitam-me que comece por dizer que, as redes sociais, de facto, tornam isto tudo mais fácil. E por isto eu digo, a escolha do tema da crónica. Sinto indecisão sobre temas, há de tudo um pouco para se falar, mas devido ao uso destas redes, a informação espalha-se globalmente quase instantaneamente.

No passado dia 23 de Maio, na zona de Isla Vista, em Santa Barbara (Califórnia), ocorreu um massacre que poderia ter sido evitado. Um jovem de 22 anos chamado Elliot Rodger, feriu treze pessoas, assassinou seis e acabou por suicidar-se. Tudo porque foi recusado romanticamente pelo sexo feminino. (É isso mesmo que acabaram de ler).

 

Não iremos falar neste momento (ficará para uma próxima vez) do tão fácil acesso a armas que os americanos têm (direito proclamado na Constituição Americana). Este massacre impensável ocorreu devido à misoginia.

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A misoginia define-se por uma aversão sentida às mulheres, e este massacre é um óbvio resultado da sociedade sexista em que vivemos. Deixando como sobrevivente um manifesto de 140 páginas em que explica o seu desdém e infelicidade por ser virgem aos vinte e dois anos de idade, Elliot Rodger foi um jovem miserável e patético, que desde jovem tinha expresso acessos de violência contra o género feminino, culminando nesta tragédia. É óbvio que o controlo de armas neste caso tem uma vital importância, visto que Elliot comprou as armas utilizadas no massacre cerca de um mês antes e anunciou-o, num vídeo publicado na sua conta no youtube, e acredito piamente que este triste episódio marcará a história da Califórnia como (mais) um motivo para controlar e restringir ainda mais o acesso a armas de fogo.

Agora, há certos aspetos que gostaria de mencionar enquanto prosseguimos com esta análise. Aparentemente, vieram a lume indícios de que Elliot Rodger sofria de um ligeiro espetro de Síndroma de Asperger. Eu venho por aqui dizer-vos que isso significa patavinas para o caso. Não foi o seu distúrbio mental que o levou a matar pessoas. Desde os seus oito anos que Elliot recebia ajuda psiquiátrica, de vários médicos. Ele tomava medicação. E gostaria também de dizer que o Estado da Califórnia tem legislação a moderar o uso a armas. Este é um caso típico de misoginia. Rodger publicou antes, muito antes, do ataque material e vídeos violentos, contra mulheres, de conteúdo maléfico e racista. E ninguém se lembrou de pensar “Ei, este tipo está a publicar estas coisas … Vamos chamar a polícia!”

A própria mãe de Elliot contactou a polícia exactamente mês antes do massacre devido à preocupação com o filho e dos vídeos misoginistas e racistas que publicava na internet, em que expunha o seu ódio contra as mulheres que o rejeitavam sexualmente e que escolhiam outros. E a polícia nada fez, não foi feita uma investigação. Estamos a falar duma pessoa que publicava vídeos e comentários na internet anunciou detalhadamente o massacre que conduziu e nada foi feito. Ficaram com a impressão de que Elliot era “perfeitamente bem-educado, simpático e um maravilhoso ser humano”.

Isto não ocorre somente nas terras do tio Sam.

Em todo o mundo acontece. Ainda bem recentemente, li um artigo (mais uma vez, nas redes sociais), duma jovem de catorze anos que foi violada por um grupo de ex-colegas de escola, que a tinham violado no ano anterior. Isto ocorreu em Portugal. E onde está a legislação? Porque é que estes jovens estavam livres, porque não foram condenados? Onde está a proteção da vítima? E um dos comentários ao artigo foi de uma pessoa anónima (porque os cobardes nunca dão a cara) que escreveu simplesmente “Bem feita”.

 

A culpabilização da vítima ocorre porque ela não é uma pessoa, é um objeto. Os violadores sentem que têm direito ao corpo das mulheres. É simplesmente isso.

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Nem todos os homens agem deste modo, nem todos dão estranha e doentia razão aos agressores, mas numa sociedade em que uma mulher só sabe quem será violento para ela quando já está a ser de facto violento com ela, torna-se compreensível que as mulheres não se possam dar ao luxo de correr esse risco. Essa condescendência e complacência podem ser fatais para uma mulher, elas podem morrer às mãos de um homem. Porque esses agressores se sentem com o direito de as ter, sendo impensável que elas digam que não.

“Como assim, não? Eu paguei o jantar, eu trouxe-te flores, eu investi o meu tempo e energia para contigo, eu quero-te tanto, eu, eu, eu quero-te sexualmente, como assim, dizes-me que não?!”

É inconcebível para este tipo de homem que uma mísera mulher os recuse, por isso, quando acontece, elas precisam de ser castigadas. Porque este tipo de ego masculino é tão frágil assim. Elliot Rodger era um fraco fedelho, mimado por um estilo de vida rico de Hollywood, mas não foi o dinheiro que lhe envenenou a mente. Existem infinitos manifestos e propagandas semelhantes às dele, onde o género feminino se prostra a um intento sexual. Em que as mulheres simplesmente existem para a sua satisfação.

Estamos em pleno século XXI, a meados do ano 2014, nós metemos um homem na lua (havemos de conversar sobre isto), nós erguemos monumentos, civilizações chegaram e vieram, nós revolucionamos a vida, e continuamos a fazê-lo, e mesmo assim, um fedelho que não conseguia arranjar uma namorada, decidiu matar pessoas como vingança. Se isto não vos impulsiona para mudar, para querer mudar, enfim, o que precisam para abrir os olhos e aceitar que, embora, o matriarcado possa irritar alguns homens, a misoginia deixa um rasto de cadáveres!

 Texto: Íris Pereira

 

Segunda voz – O paternalismo

 

Sim, porque uma voz só sobre este assunto não chega. Aliás, muitas vozes por vezes parecem nem ser suficientes quando de misoginia falamos. E quando falamos, a cultura do silêncio instala-se, esticando os seus pezinhos sarcásticos em cima da mesinha imaginária e comodista, com uma revistinha cor de rosa na mão, deixando o sofrimento que não se sente na pele bem longe da porta.

Voltemos ao cerne do que importa.

Misoginia. Paternalismo. Ou seja, o predomínio da figura masculina sobre todas as outras, sendo recorrentemente as suas atitudes compreensíveis, justificáveis, desculpabilizáveis. De modo mais prático: a figura masculina é boa, a feminina nem tanto. Os homens têm desculpa para o que fazem, para os erros que cometem e, até, para os crimes que perpetuam. As mulheres de modo algum.

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Sim, ainda há pessoas a pensar assim. E se acredita que por ser apenas um pensamento é inocente, não seja ingénuo. Ao pensarmos assim, desculpamos um crime. Crime: esta é a palavra-chave.

Antes de iniciarmos a reflexão, sublinhemos que estamos apenas a referir-nos àqueles que compactuam, através de silêncio ou comentários pseudo-benevolentes, com atos de misoginia.

Comecemos por considerar o comentário, Bem feito, dirigido à rapariga de 14 anos que foi violada pelo grupo de colegas. Pela segunda vez. Esse comentário vai muito para além do argumento comezinho ao qual alguns, incultos e nada civilizados, ainda recorrem, sendo estes de ambos os sexos, o qual alega estupidamente que os homens não se conseguem controlar ao verem as curvas ou as pernas de uma mulher. Esse comentário – Bem feita – indicia vingança, castigo. Ela vestiu uma saia curta, induzindo fantasias desmedidas nas mentes fracas e vazias dos violadores, portanto deve ser castigada. Deve ser violada. Bravo! Como é que os filósofos gregos não se lembraram disto?

Uma violação não é um ato de sexo. É um ato de violência, e assim o determina a Lei. Portanto, quando afirmam que as vítimas Estavam a pedi-las, e considerando como afirmado que a violação é levada a cabo por violência e não por sexo, então é claramente uma punição, um ataque. O que contradiz a teoria néscia de Estar a pedi-las. Quem está na realidade a pedi-las é quem afirma estas barbaridades.

Quando uma pessoa é assassinada, também estaria a pedi-las? Não, quanto a isto, somos unânimes, seja qual for a circunstância, não é aceitável. Não se deve matar. Então, sejamos sensatos e unânimes quanto à violação: não há circunstância, não há contexto, não há desculpa. É errado, é crime.

Repito, o intuito deste crime não é sexual, não é por gostar de mulheres nem do seu corpo e das suas curvas, é precisamente o contrário. É um ato criminoso, que pretende infligir sofrimento e dor, e até a morte, através da imposição de poder masculino pela brutalidade. Querer matá-las, não é gostar delas. Quem as viola, não procura prazer sexual com uma mulher, apenas rebaixá-la e maltratá-la.

Quando o comandante das milícias da República Democrática do Congo ordena: Vão e violem mulheres, não está propriamente a manifestar o seu gosto pelo sexo feminino. Abusam-nas até as matar. O rastilho nesse caso não é certamente a minissaia. Como dito de início, parece haver ainda alguma justificação para os comportamentos dos homens.

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O comentário Bem feita prova a existência de pessoas assim.

Aliás, a defesa primária da falta de controlo masculina é a derradeira humilhação. Aqui, sobre este ponto, e recordando que falamos apenas sobre os comentários proferidos em sociedade e não dos agressores propriamente ditos, os homens deveriam ser os primeiros e mais veemente interessados em refutar tal justificação. Por quê? Por que os coloca ao nível do mais inferior e reles dos animais, sem autodomínio algum sobre si mesmos, como se nem de pessoas se tratassem. Os violadores, esses sim são uma ralé repulsiva sem nenhum tipo de controlo. Nós pessoas tidas como inteligentes e educadas, queremos mesmo justificar tais atitudes, num atrevimento de as desculpabilizar e responsabilizar a vítima?

Se tentar defender, está a tornar-se cúmplice. Quer mesmo igualar-se esses criminosos?

Tristemente, há de igual modo mulheres a ceder ao paternalismo, elevando os homens e culpando-se umas às outras das mais variadas e ridículas coisas, sem consciência que, ao fazê-lo, ao perdoá-los, podem estar a colocar em risco a sua integridade física, a sua vida.

Eles não o fazem Porque são homens, ou Porque elas provocam. Não! Eles fazem-no porque são criminosos. E ao crime a tolerância deve ser nula.

E a culpa, evidentemente, não incide nas roupas que as mulheres usam. A transgressão decorre do paternalismo, paternalismo viral que contamina as mentalidades. Paternalismo que seguramente levou as famílias dos tais rapazes que violaram a mesma rapariga duas vezes a defendê-los, a isentá-los de responsabilidade e a possibilitar que se repetisse. E repetiu.

Repare, a massificação de violações que tem acontecido no mundo, ocorre sobretudo em países como a Índia, o Egito, a República Democrática do Congo. Pense, o que há de comum entre eles? São as roupas das mulheres? São as suas atitudes? É a sua liberdade? Não. São países em que o género dominante é o homem, dominante até às últimas consequências. Até à morte.

Temos de admitir que somos privilegiados no Ocidente, onde as mulheres podem sair sozinhas, com a roupa que escolherem, e os homens, falando generalizadamente, são educados, civilizados, não as perturbam, respeitam. Homens que se opõem com tanta insurreição quanto as mulheres aos crimes de violação. Na verdade, os homens ocidentais até gostam e apreciam uma mulher de vestido curto, não sendo de todo o seu pensamento magoá-la. Muito pelo contrário. Isto sim é ser Homem. Isto sim é gostar de mulheres. Tê-las à força, ainda culpando a saia, não abona muito a favor do charme masculino, concordemos.

Alguns até chegam ao extremo doentio de o fazer em grupo. Claro, conseguir de boa vontade e interesse uma mulher para cada um deles seria impossível. Então eles dividem, e dividem por meio de força.

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E não, os homens e as mulheres não são iguais. Têm, sim, direitos iguais! Não estamos a falar de feminismo nem de nenhuma outra corrente que possa eventualmente sugerir a preferência de um grupo em detrimento de outro. Falamos de Direitos Humanos. E a violação é um atentado grave e repugnante a esses direitos.

Se ainda assim pretender usar alguma desculpa na intenção de inocentar esses crimes, procure bem, porque nenhuma é plausível ou aceitável.

Texto: Paula CA Costa

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