Um médico solicita, outro suspende. Um inicia uma conduta, o plantonista seguinte muda tudo. Entenda por que decisões médicas podem divergir durante a assistência e quando essa situação deixa de ser apenas uma diferença de avaliação para se tornar um problema de segurança do paciente.
Em hospitais e serviços de urgência, uma situação chama a atenção de pacientes, familiares e até dos próprios profissionais de saúde: condutas médicas diferentes para o mesmo paciente em um curto intervalo de tempo.
Um médico solicita determinados exames. Horas depois, outro decide que eles não são necessários. Um profissional inicia um medicamento, enquanto o médico do plantão seguinte prefere suspendê-lo. Em outros casos, um paciente recebe uma orientação durante o dia e outra completamente diferente durante a noite.
Isso significa que alguém necessariamente errou?
Não.
A medicina envolve julgamento clínico, evolução do quadro, interpretação de exames e tomada de decisões diante das informações disponíveis naquele momento. Por isso, duas condutas diferentes podem ser tecnicamente defensáveis.
O problema aparece quando essas mudanças acontecem sem justificativa clara, sem comunicação adequada e sem registro, criando uma assistência fragmentada.
Por que médicos podem tomar decisões diferentes?
A primeira explicação é relativamente simples: medicina não é uma ciência de respostas absolutamente automáticas.
Protocolos e diretrizes ajudam a orientar decisões, mas o médico precisa considerar idade, sintomas, doenças anteriores, medicamentos utilizados, resultados laboratoriais, exames de imagem, resposta ao tratamento e evolução clínica.
Além disso, o quadro de um paciente pode mudar rapidamente.
Uma conduta considerada adequada às 20h pode precisar ser revista às 2h da manhã porque surgiram novos sintomas, houve alteração dos sinais vitais ou novos resultados ficaram disponíveis.
Portanto, mudar uma conduta não significa necessariamente contradizer o médico anterior. Em determinadas situações, significa simplesmente responder à evolução clínica.
O problema começa quando ninguém sabe por que a conduta mudou
Imagine uma situação simples.
Um médico solicita exames laboratoriais e inicia determinado tratamento. O plantão termina e outro profissional assume o paciente.
O novo médico cancela parte dos exames e modifica a prescrição.
A mudança pode estar perfeitamente correta.
Mas existe uma pergunta fundamental:
Por que a conduta foi alterada?
Se essa informação não estiver registrada ou não for adequadamente transmitida durante a passagem do plantão, a equipe pode ficar diante de duas orientações aparentemente conflitantes.
A comunicação inadequada durante transições de cuidado é reconhecida como um importante problema de segurança. A Joint Commission destaca que informações incompletas, incorretas, atrasadas ou mal interpretadas durante a passagem do cuidado podem causar danos e relaciona falhas de comunicação a atrasos de tratamento, erros de medicação e outros eventos adversos.
A passagem de plantão não deveria ser apenas uma troca de profissionais
A troca de turno é um momento crítico da assistência.
Quem está deixando o plantão possui informações acumuladas durante horas de acompanhamento. Quem chega precisa compreender rapidamente o que aconteceu, o que está sendo investigado e quais problemas ainda precisam ser resolvidos.
Entre as informações importantes estão:
- hipótese diagnóstica e situação clínica atual;
- alterações recentes;
- exames solicitados e resultados pendentes;
- medicamentos iniciados, suspensos ou modificados;
- intercorrências;
- riscos identificados;
- decisões que precisam ser reavaliadas;
- plano de acompanhamento.
No Brasil, o próprio Conselho Federal de Medicina já destacou, no contexto dos serviços hospitalares de urgência e emergência, a obrigatoriedade da passagem de plantão médico a médico e a necessidade de o profissional que assume conhecer o quadro clínico dos pacientes que passam à sua responsabilidade.
O prontuário é fundamental para manter a continuidade
Existe outro personagem central nessa história: o prontuário.
Ele não deveria funcionar apenas como registro burocrático do atendimento.
O prontuário permite que diferentes profissionais entendam o que aconteceu com aquele paciente ao longo das horas e dos dias.
O Código de Ética Médica determina que o prontuário contenha os dados clínicos necessários à boa condução do caso, registrados cronologicamente em cada avaliação, com data e hora.
Isso se torna especialmente importante quando uma decisão relevante é modificada.
Não basta saber que determinado medicamento foi suspenso. Para a continuidade da assistência, pode ser importante compreender o contexto clínico que levou à decisão.
Especialidades diferentes também podem enxergar o mesmo paciente de maneiras diferentes
Nem toda divergência nasce da troca de plantão.
Um mesmo paciente pode ser avaliado pelo médico da emergência, cardiologista, neurologista, cirurgião, intensivista e outros especialistas.
Cada profissional observa o caso a partir de sua área de conhecimento.
Isso pode gerar recomendações aparentemente diferentes.
O cardiologista pode estar concentrado no risco cardiovascular. O nefrologista pode avaliar o impacto renal de determinada intervenção. O cirurgião pode considerar a necessidade de um procedimento. O intensivista precisa integrar essas informações ao estado geral do paciente.
Divergências técnicas fazem parte da medicina.
O ponto crítico é como essas diferentes avaliações são conciliadas e transformadas em um plano assistencial compreensível para toda a equipe.
Excesso de trabalho, interrupções e falta de tempo também pesam
Plantões hospitalares podem envolver grande número de pacientes, emergências simultâneas, interrupções frequentes e necessidade constante de priorização.
Essas condições aumentam a importância de processos estruturados de comunicação.
A Joint Commission cita entre os fatores associados às falhas de passagem de cuidado problemas como falta de tempo, interrupções, distrações, comunicação inadequada, ausência de procedimentos padronizados e insuficiência de pessoal.
Ou seja, muitas vezes o problema não está simplesmente em “um médico discordar do outro”.
Pode existir uma falha do próprio sistema de assistência.
Quando a divergência passa a representar risco?
Condutas diferentes não são automaticamente perigosas.
O risco aumenta quando existem ordens simultâneas ou contraditórias sem definição clara de qual deve ser seguida, mudanças relevantes sem documentação, exames repetidos desnecessariamente, medicamentos suspensos ou reiniciados sem comunicação e informações importantes que não chegam ao profissional seguinte.
A falta de coordenação também pode gerar duplicidade de exames e tratamentos conflitantes.
É exatamente por isso que segurança do paciente não depende apenas da competência individual de cada profissional.
Depende também da capacidade de os profissionais trabalharem como uma equipe que compartilha informação.
“Mas cada médico não tem autonomia?”
Tem.
A autonomia profissional é fundamental para que o médico possa avaliar o paciente e tomar decisões de acordo com o quadro encontrado.
Isso significa que o profissional que assume um plantão não precisa simplesmente repetir todas as decisões tomadas anteriormente.
Se novas informações surgirem ou se sua avaliação clínica indicar outra estratégia, a conduta pode ser modificada.
Autonomia, entretanto, não elimina a necessidade de continuidade, comunicação e documentação.
Na prática, uma assistência segura precisa equilibrar esses elementos.
Protocolos resolvem o problema?
Eles ajudam bastante, mas não resolvem tudo.
Protocolos podem padronizar situações frequentes e reduzir variações desnecessárias. Ferramentas estruturadas de comunicação também podem melhorar a passagem das informações.
Uma das estratégias utilizadas internacionalmente é o SBAR, sigla para Situation, Background, Assessment and Recommendation, que organiza a comunicação em situação atual, contexto, avaliação e recomendação. A Joint Commission International continua citando o SBAR em iniciativas recentes voltadas à comunicação durante transições de cuidado.
Mas nenhum protocolo consegue antecipar todas as situações clínicas.
Por isso, protocolos precisam funcionar como instrumentos de segurança, e não como substitutos do raciocínio clínico.
E quando o paciente percebe que os médicos estão dizendo coisas diferentes?
O paciente ou familiar pode perguntar.
Questões simples podem ajudar a esclarecer a situação:
“Qual é a conduta atual?”
“O tratamento mudou?”
“Por que houve essa mudança?”
“Qual médico está responsável pelo caso neste momento?”
“Existe algum exame ainda aguardando resultado?”
Perguntar não significa confrontar a equipe.
Significa participar do próprio cuidado.
A comunicação clara com o paciente também é parte importante da segurança assistencial. A Joint Commission destaca que falhas de comunicação podem contribuir para erros, menor adesão ao tratamento e piores resultados.
O maior problema talvez não seja a discordância
Dois médicos podem discordar e ambos estarem exercendo raciocínio clínico legítimo.
Na verdade, revisar decisões faz parte da medicina.
O perigo surge quando o paciente passa por vários profissionais e cada decisão funciona como se a anterior nunca tivesse existido.
Nesse cenário, a assistência deixa de formar uma sequência e passa a funcionar como episódios isolados.
Um plantão solicita.
Outro cancela.
Outro solicita novamente.
E ninguém consegue reconstruir claramente o motivo das mudanças.
A segurança do paciente depende justamente do contrário: informação disponível, responsabilidade definida, documentação adequada e comunicação entre quem entrega e quem recebe o cuidado.
Condutas diferentes podem existir. Assistência desconectada não deveria ser normalizada.
O paciente não pertence ao médico de determinado turno.
Ele permanece sendo o mesmo paciente quando o relógio marca a troca de plantão.
A equipe muda.
A história clínica precisa continuar.
Você já presenciou uma situação em que uma conduta foi iniciada em um plantão e completamente modificada no seguinte?
Compartilhe este artigo com profissionais de saúde e pacientes. Entender a diferença entre divergência clínica legítima e falha de comunicação é uma parte importante da cultura de segurança do paciente.
Leia mais conteúdos sobre saúde, exames laboratoriais, segurança do paciente e bastidores da assistência no Alerta Saúde.
Fontes
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
Programa Nacional de Segurança do Paciente e informações sobre prevenção e redução de incidentes relacionados à assistência à saúde.
Conselho Federal de Medicina (CFM)
Código de Ética Médica, documentação e prontuário médico.
Conselho Federal de Medicina (CFM)
Orientações e responsabilidades relacionadas à passagem de plantão em serviços hospitalares de urgência e emergência.
The Joint Commission
Sentinel Event Alert 58: Inadequate hand-off communication. Documento sobre riscos associados às falhas de comunicação durante transições do cuidado.
The Joint Commission
National Performance Goal: Right Patient, Right Care. Recomendações relacionadas à continuidade do cuidado, comunicação e segurança do paciente.
Joint Commission International
Materiais sobre comunicação efetiva durante a passagem do cuidado e utilização de ferramentas estruturadas, como SBAR.
