Exames e diagnóstico

Espermatozoides na urina: devem ser relatados no laudo?

Publicado em 07/10/2026
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Entenda o significado desse achado no exame de urina e os cuidados para informar o resultado sem tirar conclusões indevidas.

Encontrar espermatozoides durante a análise do sedimento urinário pode gerar uma dúvida na bancada: é necessário informar no laudo ou o achado pode ser ignorado?

O registro pode ser adequado, mas deve seguir uma política técnica definida pelo laboratório. Não é correto apresentar a inclusão como uma obrigação universal, nem decidir pela omissão apenas por receio de constranger o paciente.

O ponto principal é confirmar o que foi observado, descrever de forma objetiva e deixar a interpretação clínica para o profissional responsável pelo atendimento.

Por que aparecem espermatozoides na urina?

Em homens, uma explicação frequente é a eliminação de espermatozoides que permaneceram na uretra após a ejaculação. Eles podem ser carregados pela urina na micção seguinte.

Por isso, encontrar essas células em uma amostra isolada não significa, automaticamente, doença ou alteração da fertilidade. Um estudo com mais de 20 mil amostras também encontrou associação do achado com diabetes, determinadas cirurgias e uso de alguns medicamentos. Essas associações, porém, não permitem identificar a causa apenas pelo exame.

Deve constar no laudo de urina rotina?

Há diferentes práticas de registro. Em uma discussão técnica publicada pelo CAP TODAY, do College of American Pathologists, o especialista consultado descreveu a inclusão do achado quando confirmado, mas ressaltou a necessidade de uma política construída entre laboratório e equipe médica. Essa publicação é de 2009 e não deve ser apresentada como uma norma atual obrigatória.

A diretriz europeia de urinálise de 2023, publicada em 2024, recomenda que os laboratórios definam e discutam com os médicos quais partículas urinárias fazem parte da análise básica e da avaliação ampliada, para facilitar a interpretação dos resultados. Essa é uma orientação geral, não uma determinação específica sobre espermatozoides.

Na prática, a conduta precisa estar descrita no procedimento operacional padrão, o POP. Isso evita que o mesmo achado seja informado por um analista e omitido por outro, sem um critério técnico.

Como descrever o achado?

Quando a política do laboratório prevê o registro e a identificação foi confirmada, uma descrição objetiva pode ser:

“Presença de espermatozoides no sedimento urinário.”

Se o serviço utiliza classificação por quantidade, ela deve seguir critérios previamente definidos. Termos como “raros”, “alguns” ou “numerosos” precisam ter um significado padronizado.

Esses são exemplos de redação, não um modelo obrigatório. O laudo deve informar o achado sem atribuir uma causa que o exame não consegue demonstrar.

Isso significa ejaculação retrógrada?

Não necessariamente.

Na ejaculação retrógrada, o sêmen segue para a bexiga, em vez de sair normalmente pela uretra. Essa condição pode ocorrer, por exemplo, quando o diabetes compromete os nervos envolvidos na ejaculação.

Entretanto, a presença isolada de espermatozoides na urina rotina não confirma esse diagnóstico. A avaliação depende dos sintomas, do histórico e, quando indicado, de uma coleta específica de urina após a ejaculação.

E quando o achado ocorre em mulheres ou crianças?

A identificação exige cuidado com a amostra e com a comunicação. É importante conferir os dados do recipiente e confirmar a observação, preferencialmente com um segundo profissional experiente.

Em situações que levantem preocupação com violência sexual, a equipe assistencial deve ser comunicada conforme o protocolo do serviço. O resultado isolado não permite determinar as circunstâncias em que o material chegou à amostra.

Uma urinálise comum também não substitui uma investigação pericial, que exige procedimentos próprios de coleta e preservação das evidências.

O paciente precisa repetir o exame?

A repetição não deve ser automática apenas pela presença de espermatozoides. A decisão depende da qualidade da coleta, dos demais resultados e do motivo da solicitação.

Se houver dificuldade para engravidar ou redução importante do sêmen ejaculado, vale procurar avaliação médica. O exame de urina rotina não substitui o espermograma na investigação da fertilidade.

Compartilhe este artigo com quem trabalha na bancada. Se o seu laboratório ainda não definiu como registrar esse achado, converse com o responsável técnico para estabelecer uma conduta clara no POP.

Fontes

EFLM: diretriz europeia de urinálise 2023, publicada em 2024

CAP TODAY: discussão técnica sobre o registro de espermatozoides na urina, 2009

Estudo original: características clínicas de pacientes com espermatozoides no sedimento urinário, 2015

NIDDK: diabetes, problemas sexuais e da bexiga

Pesquisa sobre espermatozoides na urina após a ejaculação